Meu destino é pecar

O meu, o seu, o nosso destino é pecar. Num mundo no qual os prazeres da carne são renegados, rejeitados e até reprimidos, é quase fato que um dia eu, tu e eles iremos pecar – oremos, pois, em agradecimento, porque se não exise pecado do lado debaixo do equador, imagine com consciência.

Calma, não estou aqui exaltando ou enaltecendo a promiscuidade e seus adendos, estou apenas simplificando e dizendo que se e quando a gente faz o que quer, do jeito que quer e, ponto extremamente positivo, com quem quer, pecar é uma das coisas mais gostosas do mundo. Um pecadinho assim, de liberar um pouco mais as mãos, a boca, as pernas… e o que mais a gente quiser, afinal, é uma delícia se entregar e ser recebido sem premissas. Além do mais, sempre escutei, desde pequenininha, que é dando que se recebe. Fora daqui, moralismo fake.

E hoje ouvi dizer que é dia do escritor… encontrei, há tempos, uma coleção genial de livros de Suzana Flag, pseudônimo mais safado de Nelson Rodrigues – se é que Nelson Rodrigues consegue ficar mais safado, aquele serelepe! – chamada “Meu destino é pecar”. Tô pra ler e, claro, me inspirar na obra toda, com 13 volumes e desenhos interessantíssimos.

Abaixo, a apresentação da Suzana, procê ver bem do que estamos falando:

Eu posso começar esta história dizendo que me chamo Suzana Flag; e acrescentando: sou filha de canadense e francesa; os homens me acham bonita e se viram na rua, fatalmente, quando passo. Uns olham, apenas; outros me sopram galanteios horríveis, mas já estou acostumada, graças a Deus; há os que me seguem; e um espanhol, uma vez, de boina, disse, num gesto amplo de toureiro: “Bendita sea tua madre!”. Lembrei-me de minha mãe que morreu me amaldiçoando e senti um arrepio, como se recebesse, nas faces, o hálito da morte. Bem, acho que meu tipo é miúdo, não demais, porém. E foi isso talvez que levou certo rapaz a me dizer, pensativo: “Se você cantasse, daria uma boa Mme. Butterfly”. Há mulheres, de certo, menores do que eu. Mas gosto de ser pequena, de dar aos homens uma impressão de extrema fragilidade e de me achar, eu mesma, eternamente mulher, eternamente menina. Às vezes, não sempre, tenho uma raiva de umas tantas coisas que existem em mim e que atraem os homens. E, nessas ocasiões, desejaria ser feia ou, pelo menos, desinteressante, como certas pequenas que impressionam um homem ou dois, e não todos. O que acontece comigo é justamente o seguinte: eu acho que impressiono, se não todos, pelo menos a maioria absoluta dos homens. Mesmo homens de outras regiões, quase de outro mundo, se agradam de mim. Inclusive aquele marinheiro norueguês, alvo e louro, que me olhou de uma maneira intensa, uma maneira que me tocou tanto quanto uma carícia material. Tenho vinte e poucos anos e devo dizer, não sem uma certa ingenuidade, que vivi muito mais, que tive experiências, aventuras que mulheres feitas não têm. Para vocês compreenderem isso, precisavam me conhecer como eu sou fisicamente, isto é, ver os meus olhos, a minha boca, o modo de sorrir, as minhas mãos, todo o meu tipo de mulher. Se vocês me conhecessem assim – eu poderia dizer: “Esta é a história da minha vida, esta é a história de Suzana Flag”… Mas é preciso advertir: vou contar tudo, vou apresentar os fatos tais como aconteceram, sem uma fantasia que se atenue. Isso quer dizer que o meu romance será pobre de alegria; poderia se chamar sumariamente: “Romance triste de Suzana Flag”.

Me acompanha? Vem, se mete!

About Mari Enne

Sou a dona da casa, interessada pelo assunto, curiosa desde pequenininha. E ah, eu amo o amor. Afinal, é dando que se recebe.

Um comentário para Meu destino é pecar

  1. João Moura disse:

    Caraca deu muita vontade de pecar, rsrsrsrs!!!!!!!!!!!!!!! Você é loira ou morena?????

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